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Como o biometano pode substituir combustíveis fósseis na indústria?

Durante décadas, o debate sobre combustíveis industriais esteve dominado pelas fontes fósseis tradicionais. Esse cenário começa a mudar de forma concreta com a consolidação dos mercados de gás renovável no Brasil e o biometano ocupa posição central nessa transformação.

De acordo com o Panorama do Biogás no Brasil 2024, o país já registra 1.633 plantas de biogás cadastradas e 79 unidades voltadas à produção de biometano, considerando plantas em operação e em fase de implantação. Esses números não são apenas estatísticas de expansão setorial: eles indicam que o biometano deixou de ser uma promessa de futuro e se tornou uma alternativa energética disponível, com infraestrutura crescente, regulamentação estabelecida e mercado em formação.

Para gestores industriais e empresários do setor de produção, isso significa que parte do gás natural, do GLP e do óleo combustível consumidos hoje em caldeiras, fornos e secadores pode ser substituída por energia produzida regionalmente, a partir de resíduos da própria indústria e da agroindústria. O impacto potencial vai além da redução de emissões, pois envolve segurança de abastecimento, competitividade de custo, acesso a instrumentos financeiros ligados à agenda ESG e preparação para uma economia de baixo carbono.

Qual é a relação entre biometano e gás natural?

Antes de avaliar a substituição de combustíveis fósseis, é fundamental entender por que o biometano e o gás natural são tecnicamente comparáveis  e onde estão suas diferenças.

O biometano é um combustível renovável obtido pela purificação do biogás, gerado pela decomposição anaeróbia de matéria orgânica. As principais fontes no Brasil incluem resíduos agroindustriais (como vinhaça e torta de filtro da cadeia sucroenergética), dejetos da pecuária, resíduos sólidos urbanos, efluentes industriais e lodo de estações de tratamento de esgoto.

No processo de purificação — chamado de upgrading —, são removidos o dióxido de carbono (CO₂), o sulfeto de hidrogênio (H₂S), o vapor d’água e outras impurezas. O resultado é um gás com concentração elevada de metano, cujas propriedades — poder calorífico inferior, Índice de Wobbe e pressão de entrega — podem ser enquadradas dentro das especificações regulatórias da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Quando essas especificações são atendidas, o biometano é intercambiável com o gás natural. Isso significa que ele pode ser utilizado nos mesmos equipamentos, nas mesmas redes e com os mesmos queimadores, sem necessidade de modificações estruturais. Pode ser injetado em redes de distribuição canalizada, abastecer caldeiras e fornos industriais, alimentar sistemas de cogeração, movimentar frotas de GNV e ser transportado por gasoduto virtual na forma comprimida ou liquefeita.

As diferenças centrais entre os dois combustíveis não estão na aplicação, mas na origem e nos atributos ambientais. O gás natural é um combustível fóssil extraído de reservatórios subterrâneos, com emissões de carbono de origem geológica. O biometano integra o ciclo biogênico do carbono e, quando o projeto controla as emissões fugitivas e a cadeia logística, pode apresentar intensidade de carbono significativamente menor — ou até negativa, em casos onde as emissões evitadas superam as geradas ao longo do ciclo de vida.

Isso não significa que biometano e gás natural devam ser tratados como concorrentes. Em uma estratégia energética bem estruturada, o gás natural pode atuar como combustível de respaldo e transição, garantindo continuidade operacional e flexibilidade de suprimento, enquanto o biometano introduz o componente renovável e reduz progressivamente a participação fóssil na matriz da empresa.

O biometano pode substituir o GLP e outros combustíveis fósseis na indústria?

Sim. O biometano pode substituir o GLP, o óleo combustível e, em determinadas aplicações, outros derivados de petróleo utilizados para geração de calor industrial. No entanto, essa substituição não ocorre da mesma forma que a utilização intercambiável entre biometano e gás natural  e reconhecer essa diferença é essencial para avaliar a viabilidade de cada projeto.

O GLP é armazenado na forma liquefeita sob pressão, em tanques ou cilindros, e vaporizado antes do uso. O óleo combustível envolve sistemas de armazenamento, bombeamento e aquecimento de combustível antes da queima. O biometano, por sua vez, é utilizado predominantemente na forma gasosa e requer infraestrutura específica para recebimento — seja por rede canalizada, gasoduto dedicado, rede local ou transporte rodoviário de gás comprimido (GNC) ou liquefeito (GNL).

Por isso, a conversão tende a ser mais direta em indústrias que já operam com gás natural ou possuem sistemas preparados para combustíveis gasosos. Nas operações atualmente abastecidas por GLP ou óleo combustível, as adaptações podem incluir:

  • Recalibração ou substituição de queimadores e bicos — em função das diferenças de poder calorífico, Índice de Wobbe e razão ar-combustível
  • Adequação de reguladores, válvulas e sistemas de medição
  • Revisão das tubulações internas e dos dispositivos de segurança
  • Implantação da infraestrutura de recebimento e regulagem do biometano

A complexidade e o custo dessas adaptações variam conforme o perfil de consumo da planta, a tecnologia dos equipamentos existentes, a distância da fonte de suprimento e as condições logísticas da região. Em projetos bem documentados de conversão de GLP para biometano no Brasil, o custo de adaptação técnica representa, em geral, entre 15% e 35% do CAPEX total, com payback médio situado entre 24 e 48 meses — influenciado principalmente pelo diferencial de preço entre os combustíveis e pela viabilidade logística do fornecimento.

A pergunta mais precisa, portanto, não é apenas se o biometano pode substituir um combustível fóssil, mas em quais condições essa substituição é viável do ponto de vista técnico, logístico e econômico. A resposta depende de uma análise específica para cada operação — e é nessa análise que as empresas precisam investir antes de qualquer decisão de conversão.

Principais diferenças entre GLP, biometano e gás natural

Embora possam atender a aplicações industriais semelhantes, GLP, biometano e gás natural possuem características distintas em origem, composição, logística, emissões e papel na transição energética. A tabela a seguir consolida esses atributos sob uma perspectiva técnica e estratégica:

 

Critério GLP Biometano Gás Natural
Origem Derivado do petróleo e do processamento de gás natural Produzido pela purificação do biogás gerado a partir de resíduos e biomassas Combustível fóssil extraído de reservatórios subterrâneos
Fonte energética Não renovável Renovável (ciclo biogênico do carbono) Não renovável
Composição predominante Propano e butano Metano, dentro das especificações ANP aplicáveis Metano, com hidrocarbonetos leves dentro das especificações
Armazenamento Liquefeito sob pressão em tanques ou cilindros Gasoso; pode ser comprimido (GNC) ou liquefeito (GNL) Gasoso; pode ser comprimido ou liquefeito
Distribuição Caminhões-tanque e tanques locais Rede, gasoduto dedicado, rede local ou gasoduto virtual Redes e gasodutos; disponível também como GNC ou GNL
Emissões de GEE (ciclo de vida) Altas — 100% de origem fóssil Baixas a negativas, dependendo da matéria-prima e controle de emissões Moderadas — fósseis; impacto depende do controle de emissões fugitivas de CH₄
Intercambialidade com GN Não — exige adaptações significativas Sim, quando dentro das especificações ANP
Certificação ambiental Não disponível RenovaBio (CBIO), Garantias de Origem (GO), I-REC Não disponível
Papel na transição energética Contribuição limitada à descarbonização Descarbonização, economia circular e interiorização do gás Combustível de transição e base para gases renováveis
Capacidade de interiorização Alta capilaridade rodoviária Alta — produção descentralizada próxima às fontes de biomassa Limitada à malha dutoviária; ampliável por GNC ou GNL

 

A análise comparativa reforça que não existe uma escolha binária entre biometano e gás natural. Os dois compartilham aplicações e infraestrutura. Nas operações atualmente abastecidas por GLP e óleo combustível, a migração para biometano pode combinar ganhos operacionais, redução de emissões e melhora na segurança do abastecimento — desde que suportada por análise técnica e econômica consistente.

5 vantagens da substituição de combustíveis fósseis pelo biometano na indústria

A incorporação do biometano à matriz energética industrial vai além de uma troca de combustível. Em muitos casos, representa uma mudança estrutural na forma como a empresa organiza seu suprimento de energia, gerencia resíduos e conduz sua estratégia de descarbonização.

1. Redução mensurável das emissões de gases de efeito estufa

O GLP, o óleo combustível e o gás natural fóssil liberam carbono de origem geológica na combustão. O biometano é produzido a partir de resíduos orgânicos e integra o ciclo biogênico do carbono — além de poder evitar as emissões de metano que ocorreriam no manejo inadequado desses resíduos em aterros ou lagoas abertas.

O benefício precisa ser medido no ciclo de vida, levando em conta a matéria-prima utilizada, o consumo energético no upgrading e na compressão, a logística de transporte e o controle das emissões fugitivas. Quando o projeto controla esses fatores, o biometano pode apresentar reduções de emissões relevantes em relação aos combustíveis fósseis — e essas reduções são documentáveis e rastreáveis, o que é cada vez mais exigido por investidores, clientes e cadeias globais de suprimentos.

2. Segurança de abastecimento e diversificação da matriz

O biometano pode ser produzido próximo às fontes de biomassa e aos centros de consumo. Isso cria uma alternativa de suprimento regional que reduz a dependência de combustíveis importados, a exposição à volatilidade do câmbio e ao preço do petróleo, e a concentração geográfica das fontes de energia. Contratos de fornecimento de médio e longo prazo com produtores locais permitem maior previsibilidade de custo — um ativo importante para o planejamento financeiro das operações industriais.

3. Interiorização do gás e acesso a regiões sem rede

Uma das características mais relevantes do biometano para a indústria brasileira é a possibilidade de produção descentralizada. Como as plantas de biometano podem ser instaladas próximas às fontes de resíduos e biomassa — frequentemente localizadas no interior do país —, o combustível pode atender indústrias em regiões onde a rede de gás natural ainda não chegou. O abastecimento pode ocorrer por redes locais, gasodutos dedicados ou gasodutos virtuais com biometano comprimido ou liquefeito, criando mercados regionais de gás onde antes havia apenas logística rodoviária de derivados.

4. Fortalecimento da economia circular

O biometano transforma resíduos e efluentes em energia. Em setores como agronegócio, alimentos e bebidas, saneamento e papel e celulose, o combustível pode ser produzido a partir de resíduos gerados pela própria operação — o que fecha ciclos internos e reduz custos de destinação de resíduos. Dependendo da rota tecnológica adotada, o projeto também pode gerar digestato com potencial de valorização agronômica e CO₂ biogênico passível de purificação e comercialização.

5. Compatibilidade com a infraestrutura existente e complementaridade com o gás natural

Quando o biometano atende às especificações de qualidade aplicáveis, a infraestrutura de gás natural existente pode ser aproveitada. Isso reduz as barreiras de entrada e permite tratar o biometano como parte de um portfólio energético — e não como uma solução isolada. A empresa pode estruturar uma estratégia que combina biometano como componente renovável e gás natural como respaldo operacional, ajustando a participação de cada fonte conforme a disponibilidade regional e os objetivos de descarbonização.

O que avaliar antes de substituir GLP e outros combustíveis fósseis por biometano?

A substituição de combustíveis fósseis pelo biometano exige análise cuidadosa antes de qualquer decisão de conversão. Os fatores a seguir formam um roteiro mínimo de avaliação para gestores industriais.

O primeiro passo é mapear a disponibilidade de biometano na região, identificar os produtores mais próximos, avaliar as alternativas de transporte (rede canalizada, GNC rodoviário ou GNL) e definir qual será o combustível de contingência em caso de indisponibilidade. A proximidade da fonte impacta diretamente o custo logístico e a viabilidade econômica do projeto.

Em seguida, é necessário levantar com precisão a demanda energética da planta — perfil horário e sazonal de consumo, pressão de entrega, temperatura de processo e continuidade operacional exigida. Esses dados são a base para dimensionar o fornecimento e identificar as adaptações técnicas necessárias nos sistemas de recebimento, combustão e medição.

A análise econômica deve comparar o custo por unidade de energia útil — preferencialmente em R$/GJ — entre o biometano e o combustível atual, incluindo CAPEX de adaptação, OPEX, logística, manutenção e eventual valor dos atributos ambientais (créditos de carbono, CBIOs, certificados). O retorno sobre o investimento e o prazo de payback devem ser calculados com base em cenários de preço realistas e em condições contratuais bem definidas.

A qualidade do biometano e o modelo de fornecimento merecem atenção especial. É preciso verificar se o gás fornecido atende às especificações ANP aplicáveis, como é feita a medição e a odorização, quais são as garantias de continuidade e o que acontece em caso de indisponibilidade. O contrato deve definir claramente o volume firme, as condições de reajuste, a duração, o ponto de entrega e os mecanismos de contingência.

Por fim, a decisão deve considerar os objetivos estratégicos da empresa. O biometano gera valor industrial concreto quando integrado a metas de descarbonização e a uma estratégia energética de longo prazo — não quando tratado como uma decisão isolada de compra de combustível. A combinação de biometano como componente renovável, gás natural como respaldo e uma estrutura de rastreabilidade e certificação adequada é o modelo que tende a entregar os melhores resultados em termos de segurança operacional, competitividade e posicionamento ambiental.

A transição energética já está em curso  e o biometano é parte dela

O avanço dos mercados de biogás e biometano no Brasil mostra que a transição energética industrial não é uma tendência distante. A infraestrutura está sendo construída, a regulamentação evolui, os produtores se multiplicam e os instrumentos financeiros para viabilizar projetos se tornam mais acessíveis.

Para as indústrias que consomem GLP, óleo combustível ou gás natural, a pergunta relevante não é mais se o biometano pode substituir esses combustíveis — mas em quais condições essa substituição faz sentido para cada operação. Respondê-la exige análise técnica rigorosa, conhecimento do mercado regional de biometano e clareza sobre os objetivos energéticos e ambientais da empresa.

As empresas que iniciarem esse processo com consistência estarão melhor preparadas para capturar os benefícios da transição energética sem comprometer a continuidade e a competitividade das suas operações.

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